terça-feira, novembro 17, 2009

A Dura

Polícia no Rio é assim: só aparece quando a gente não precisa... Quando a gente passa por sufoco e precisa de um ombro oficial amigo, com poder para botar ordem no barraco, cadê? Pois é... Numa dessas em que eu não precisava da polícia, lá estava ela, mais eficiente do que nunca e fui uma meliante por um breve momento. Tomei uma dura ridícula...

Há três semanas, depois de um dia de sol daqueles com céu de brigadeiro
(coisas que só tornam o Rio mais impressionantemente belo), já na paz do meu lar, toca o meu celular e era a acompanhante da minha vó, vulgarmente conhecida como Vó Silva e Vó Antonia (sim, trata-se da mesma pessoa - leia: http://segredinhosecretinhos.blogspot.com/2006/07/dia-da-av.html), desesperada porque minha avozinha havia desmaiado. Correria para lá, correria para cá, ambulância, hospital. Tudo caótico, mas tudo ficou bem.

No dia seguinte, havia muito o que fazer: trabalhar (o que só atrapalha meu dia-a-dia), buscar as coisas da vovó para levar ao hospital, buscar minha mãe no aeroporto para ver minha avó e voltar pro hospital. Peguei o Aterro do Flamengo, a caminho do aeroporto, uma viatura da polícia começa a piscar os faróis. Eles querem passagem. Vou abrir caminho. E eles não passavam e continuavam piscando os faróis. Será que é comigo? Encostei o carro na entrada da antiga Porcão.

- D. Maria? Odeio que me chamem de D. Maria, mas meliante não discute com polícia.
- Sim?
- Dois anos sem vistoriar seu carro.
- É, seu Guarda. Eu sei. Tudo andou muito confuso nos últimos tempos... Me esqueci completamente...
- A Sra. sabe que isso dá uma multa de R$900,00 e apreensão do veículo, né?
- Apreensão? O Sr. vai levar meu carro?
- Sim, é a lei...
- Ah, seu Guarda... Minha avó tá no hospital, estou indo buscar minha mãe no aeroporto para ver a minha avó... Não é mentira... Pode ligar pro hospital. Aqui, o telefone. Pede para ligar pra CTI...
- É, minha Sra, não tem nada que eu possa fazer.
- Seu Guarda, como vou embora daqui? A gente está no meio do nada...
- De táxi...
- Tá. Tudo bem. E como faço para tirar meu carro do xilindró amanhã?

E ele me deu aquelas instruções burocraticamente assustadoras, mas não havia o que fazer. O carro ia pro xilindró... Liguei para a cooperativa de táxi.
- Eu quero um táxi, por favor.
- Endereço, por favor?
- Aterro do Flamengo, na entrada da Porcão...
- Minha Sra, sem endereço não dá...
- Mas qualquer motorista nesse Rio de Janeiro sabe onde é o Aterro do Flamengo e a entrada da Porcão. Até quem não dirige, sabe!
- Endereço, por favor?
- Seu Guarda, qual o endereço daqui?
- Pra que?
- Ué? O Sr, não vai apreender o meu carro?
- Calma, minha Sra. Desliga esse telefone. Estou falando com meu capitão... A Sra é legal. Nem está zangada comigo.
- Zangada com o Sr, seu Guarda? Tô é zangada comigo! Tô toda errada! E o Sr. só quer fazer o seu trabalho. Só que estou com pressa: minha vó está no hospital, tenho que buscar minha mãe..... O Sr. sabe...
- Bom, meu capitão disse que podemos dar um jeito se a Sra tiver uma parte da multa com a Sra.
(eu que sou uma pessoa que ainda vou apanhar de um flanelinha porque nunca tenho nenhum puto na carteira)
- Só tenho cheque... Aceita cheque?
- E cartão de crédito? A Sra tem?
- Seu Guarda, o Sr tá brincando comigo que viatura agora vem com a maquininha de cartão???? É VISA? Master?

O policial olhava para mim como se eu tivesse vindo de outro mundo...
- Não, minha Sra, é só para saber em que banco a Sra tem conta...
- Itaú...
- Então vamos a um caixa eletrônico.
- Seu Guarda, dá para ir no caixa do aeroporto? Assim eu deixo o carro no estacionamento, saco o dinheiro e pego a minha mãe.
- Minha Sra. no aeroporto vai dar muito na cara. (Meu deus! Agora caiu a ficha: ele quer propina!!!!! Eu nunca dei propina na vida!!! O que eu faço??? Não dá para comprar essa briga: minha avó tá no hospital, tenho que pegar minha mãe no aeroporto e o esse carro está vendido. PQP!!!!!!! Me ferrei!!!! E agora? Como saio dessa?)

O policial sugeriu que eu fosse escoltada pela viatura policial até um caixa eletrônico mais próximo, mas não consegui ir adiante...

Fiquei sem carro...


segunda-feira, novembro 02, 2009

2 mulheres e 4 garrafas de vinho



Há muito muito tempo, chutando aí uns 13 anos, duas amigas, Fulana e Sicrana (é com "S"? Se não for, vai assim mesmo), se encontraram na casa de uma delas na Barra para tomar um vinho e conversar. Sicrana, que tinha um bebê de 6 meses, estava passando pela enésima crise no casamento. Era tão enésima a crise, ela já nem desfazia a mala de impulso de deixá-lo: ficava ali guardada, embaixo da cama. E Beltrano, seu marido, como todo homem, nem havia percebido que havia uma mala embaixo da cama.

Voltando àquela noite, as duas estavam pondo a vida alheia em dia (fofocar jamais!), quando ingressaram na quarta garrafa de vinho. Isso mesmo: duas mulheres e quatro garrafas de vinho - equação nada boa quando um casamento está em crise. E o vinho começou a falar pela Sicrana, como se ela fosse um boneco de ventríloco. E as idéias foram surgindo, as revoltas tomando dimensões cavalares e os espíritos se exlatando. Num rompante, Fulana e Sicrana se entreolharam e, sem precisar de nenhuma palavra - apenas um olhar, pegaram a mala do impulso, o bebê (que também tinha sua mala do impulso), carrinho, banheira, baldinho de praia e sabe-lá-mais-o-que e desceram. No elevador, Fulana, amiga sempre solidária e após quatro garrafas de vinho era a própria Madre Tereza, acalma a amiga enrolando a língua:

- Fiiica tranqüila, amiga. Tô de xeu lado. Tem um quarrrrto lá em caxa pá voxê...
- Pô, voxê é amiga mexmo...

Chegaram ao térreo, descarregaram mala da mãe, mala do bebê, carrinho, banheira, baldinho de praia e sabe-lá-mais-o-que, e Fulana foi buscar o carro. Voltou ziguezagueando e disse:

- Aí, eu não exxtou achando o carrrrro...
- Sai da frentxxe, voxê extá bêbada...

Passam-se uns minutos...

- Olha, eu também num exxtou achando o carro... Acho que roubaram o possante...

As duas amigas, cambaleando, subiram mala da mãe, mala do bebê, carrinho, banheira, baldinho de praia e sabe-lá-mais-o-que, tocaram na vizinha e deixaram o garoto com a vizinha. Partiram para a delegacia de táxi. Chegaram na delegacia, havia um elemento esfaqueado na entrada. Foram ao delegado.

- Quando a senhora percebeu que tinham roubado seu carro, o que a senhora fez?
- Ah, seu guarrrda [ic], quer dizer, seu delegado [ic], eu xentei e chorei [ic]... Era para fazer outra coisa? [ic]

O delegado olhou pra cima e suspirou: será uma longa noite...